segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012








longo rastro de lesma
desenho no roda-pé
um grafismo disforme
deliro 

visgo de caracol africano 
pranto de escaravelho ferido 
ou o riso dentado.lacrado 
de crocodilo empalhado? 

há oito anos 
no mármore branco 
do corredor do palácio 
se arrasta um minotauro 
em terno de burocrata 

caminha adernado 
quase tombando 
carapaça oscilante 
de tartaruga virada



igor k marques
02.12.97


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012




cambaleante o desenho
ergue-se perplexo totem
ectoplasma em estado de graça 
em êxtase místico 
ou transe fugaz?

incoerente
mudo ou falaz
em que suporte 
o desenho erige-se?
ora delira sóbrio
(saco de pele
tendão e ossos?)
ora elocubra ébrio
(container de carne
esperma e sangue?)


obs.cena.um

falo da imagem que me encara
de seu esgar de prazer
falo da pulsão plástica 
de suas tramas de gozo e dor

obs.cena.dois

falo da seiva que pulsa espessa
na selva de suas veias
do insustentável nirvana 
e seu lento desmoronar
minando resina
sangrando cor
matérico menstruo
de fêmea que aborta exangue
pigmentos do sublime
detritos  do prazer


obs.cena.três


desmantela-se manso
o desenho 
em surdo ruir terminal
arquitetura inviável implode 
diante dos olhos perplexos 
incrédulos do seu criador

uma poeira gris paira sobre seus dejetos
palavras malditas, murmúrios de autista, 
estilhaços de canção, ruínas da memória, 
cantilenas de demente reverberam ocas
entre as quatro paredes 
de um cárcere de piranesi 

obs.cena.quatro
(cai o pano)

cambaleantes
imagem e criador
reerguem-se perplexos totens
insanos narcisos deliram ainda 
por um dia serem
eretos falos 
loquazes obeliscos romanos



igor k marques
18/24/JUL/2000
15.06.12

terça-feira, 27 de dezembro de 2011




OLVÍDALOS

DELÉTALOS


DESPÉTALOS


DECÉPALOS


ESCÁLPELOS






ENTIÉRRALOS

EN CUEVA HONDA

A TODOS

Y A TUS RECUERDOS

EXCRÉTALOS

PARA DEJAR BROTAR

EL POEMA






igor k marques

2006

quinta-feira, 24 de novembro de 2011




como um aguirre de Herzog
me arrasto sobre terra virgem
claudico
atendo exausto
às instruções do diretor

and all of a sudden
de pernas para o ar
I’m trapped
hanging up side down
and down side up

em terra estrangeira
enclausurado
entre quatro muros
sem histeria
sem ais

o assédio
e as retaliações
stop it
urros e cantatas
calma violência
é apenas um set de filmagem
nada mais

espirros de sangue
suor morno
surdo humor
mucos e pigarros
esperma e espasmo

para gerar um poema

uma frase de cada vez
na cabeça o Tibre
o timbre e o ritmo da palavra
ainda lacrada
na ponta da língua
na polpa do fonema







Igor K. Marques

20.01.1993
& 05.04.1996





quarta-feira, 16 de novembro de 2011





mono . cromo .  mono
silk sheet on black skin
charcoal and steel
ice on the moon
red spot on the back of a mandrill

os faróis na curva revelam
longas marcas de pneus
sulcos concêntricos no vinil
abrigam o som e o silêncio
mercúrio
(som)
marte
(o silêncio)
mais próximos da lua negra
(round spot on the full moon)

fenda rubra na pele branca
exala o doce aroma da carne

nadando em círculos
um tubarão em águas tépidas
saliva palavras
deflagrando a fala voraz
da presa e do predador
do ouvinte e do interlocutor
que por breves instantes
confundem papéis
na noite do eclipse lunar



igor k marques
25.03.1997

quarta-feira, 2 de novembro de 2011




      
HONRA DE MICA
SANGUE DE BARATA
EUFORIA DE ESTANHO
TAPA NA CARA
FEELING DE ALPACA

INSIGHT DE MAHATMA
SAUDADE DE BASALTO
DOENÇA RARA
MÁGOA QUE MATA
SUSSURRO DE BAUXITA
BEIJO NO ASFALTO 
OURO DE BANHO
PRATA VIRA LATA
PRAGA DE XIITA

METÁFORA DE XIPÓFAGO
OU RETÓRICA DE PROFETA?
PALAVRA DE ANTROPÓFAGO
OU JIVE DE POETA?



igor k marques
mar/2006
nov/2011

segunda-feira, 17 de outubro de 2011


   

 

como um selvagem na escuta
à espera da presa
oculto. inculto. cultuo
horas espreito
a palavra

no dissimulado gozo
da prostituta
na lavra secreta do esteta
no murmúrio contrito 
do sacerdote
a palavra 

no discurso pronto
daquele que não é poeta
inscrita no flanco de um tigre
no breu absoluto tateio
extraio do caos
da fenda na mata fechada
um nítido raio lunar
brilho em ponta de faca
a palavra não dita


ora sutil lâmina vertical
no olhar do felino
ora no ralo de esgoto
no fundo do poço
onde bruta a palavra vegeta


    

                             


igor k marques
03.07.06

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