terça-feira, 28 de junho de 2011

"sacra trampa / peça / pregar uma"

















sacra
trampa
peça
pregar uma
reza e ajoelha
tem que
 
curral
fila para
cólera amarela
surdo e tambor
cara
tapa na
efeito cascata
metralhadora
rajada de
 
o meu na sua
para a semeadura
fenda aberta
íris cinza azulada
areia branca
arrodiada de


igor k marques
17.11.97

segunda-feira, 27 de junho de 2011

"é a trama / a marca do solstício"


é a trama
a marca do solstício
camerata
osíris.sorriso
da boca que me sugou
calígrafa escrita
escrava língua


nula cáscara sagrada
couro
lábio fendido
miragem
torpor
cal e pedra
engradado 
de blocos de granito
cápsula de rocha
copo de vidro
vento encanado 
memória maldita
palavra encarnada
túnel azul
com luz no fim
é a fonte
o luar
a calçada
o câncer
catraca
cartago
mogno
aço

saliva morna
de boca em boca
o paladar
a prova

narinas dilatadas
o odor mesclado
pele sobre pele
poça e asfalto
peito e mamilo
íris e olho
e costela
osíris.sorriso
de crocodilo



igor k marques

1997

quinta-feira, 16 de junho de 2011

"diante dos olhos passam"




DIANTE DOS OLHOS PASSAM

COMO NA IMAGEM LEGENDADA

AFOGAM-SE AS PALAVRAS

SUBMERGEM

FLUTUAM

INFLADAS COMO GADO MORTO

DEBATEM-SE ENTRE PEDRAS E TRONCOS

ASSISTO A TUDO IMPASSÍVEL

A POUCOS METROS DA MARGEM

INÚTIL CRIAR

SEM JOGAR

ABSURDO FALAR

SEM CANTAR

NAS CORDAS VOCAIS

TESTO CONSOANTE E VOGAL

EMITO SONS GUTURAIS

DE INAUDÍVEIS SOLUÇOS

OU DESCONEXO RUGIDO

DE SEIXOS ROLANDO

NO LEITO DO RIO?

NÃO, NÃO HÁ MÚSICA

É SÓ RUIDO

IMÓVEL SOB A CHUVA

ENGULO EM SECO

ÁCIDAS PALAVRAS MAL.DITAS

INFILTRAM-SE AMARGAS

MINANDO MEUS OSSOS

ENCHARCADOS DE

LÁGRIMAS AGRIDOCES

SEM DEFESAS

 UM BOTE NA JUGULAR

ME DEIXA AFÔNICO

FRATURO A FALA

NO ANTICLÍMAX

DE UM JOGO DE AZAR

DA FEBRÍCULA OBSCURA

QUE ME INVADE SURDA

DOS TESTÍCULOS

À PONTA DA LÍNGUA TRAVADA

DO POEMA RESTAM DEJETOS

INCOERENTES DE SUA LAVRA

MORRENDO À MÍNGUA

AO SABOR DA CORRENTE

igor k marques

nov/2005

jun/2011

segunda-feira, 6 de junho de 2011

"sete anotações de cena (último dia)"



(imagem sem menção do local e do autor da foto)



sete anotações de cena
(último dia)

(I)


uma criança inocente
em primeiro plano?
(ou nos encara irônico
um anjo exterminador?)

(II)

três adultos impassíveis
em segundo plano
observam a casa
meros espectadores
ou os próprios incendiários?

(III)

em que plano oculto se debatem
aqueles que nos espreitam
ainda-inocentes
ainda-perversos
dentro da casa em chamas?

(IV)

uma curiosidade gratuita
quase-obscena
quase-perversa
indiscriminada e crônica
persevera no olhar anônimo
de quem mira de fora da cena

impassíveis voyeurs

num confortável mirante

de volátil fronteira

espectadores convictos

de sua ilusória blindagem

uma trincheira

invulnerável às chamas?

(V)

em frente ao monitor

o olhar oscila

mergulha do sorriso da menina

até a casa incendiada

em movimento pendular e contínuo

(VI)

as pupilas contraídas

na face ainda o rubor

e o sorriso

quando o calor 

das primeiras labaredas

carbonizar a carne

o osso e a máquina

quando tudo e todos

forem consumidos

como num forno crematório

(VII)

não restarão

palavras sobre brasas

imagem sobre cinzas

brasas sobre cinzas

cinzas sobre cinzas

não restarão



igor k marques
06.06.11

imagem: sem crédito de autoria no link de origem


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